A REDE DE DELAÇÕES DA LAVA JATO:
a trama da política brasileira

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Iniciada no dia 17 de março de 2014, com a prisão de 24 pessoas acusadas de lavagem e desvio de dinheiro em mais de seis estados brasileiros e no Distrito Federal, a Operação Lava Jato é a investigação sobre corrupção de maior envergadura já conduzida no Brasil. Seu nome tem origem em uma rede de postos de combustível e de lavagem de carros de Brasília que era usada como meio para movimentar recursos ilegais originários de uma das organizações criminosas inicialmente investigadas.

Atualmente, a investigação se encontra em sua 41º fase, e evidenciou um extenso esquema de corrupção que envolve doleiros, a Petrobrás, empreiteiras, políticos e outros setores econômicos – abarcando grandes obras, como a usina nuclear de Angra 3, Belo Monte, obras de metrô, ferrovias e estádios.

AGENTES ENVOLVIDOS E SUAS FUNÇÕES NO ESQUEMA

O esquema investigado pela Lava Jato possui, pelo menos dez anos. Era composto por grandes empreiteiras que se organizam em forma de cartel e pagavam propina para altos executivos da Petrobrás e outros agentes públicos, de modo que o suborno era distribuído pelos operadores financeiros do esquema.

Empreiteras

Quando a Petrobras abria licitações, era esperado que as empreiteiras concorreriam entre si para conseguir os contratos. Entretanto, as grandes empreiteiras se uniram em forma de cartel. Nesse caso, os preços que eram oferecidos à Petrobrás eram decididos em reuniões secretas que definiam quem ganharia o contrato e o respectivo preço – é razoável pensar que os valores pagos eram superiores aos esperados em concorrência perfeita, de modo que os cofres da Petrobrás tinham prejuízo e as empreiteiras lucros.

Funcionários da Petrobrás

Para que o esquema funcionasse, era necessário que somente as empresas pertencentes ao cartel formado participassem das licitações. Assim, era interessante que funcionários da Petrobrás participassem do esquema e, sobretudo, favorecessem essas empreiteiras, bem como restringindo as participantes, estabelecendo preços altos, pulando etapas necessárias para acelerar contratações, vazamento de informações, entre outros.

Operadores Financeiros

Os operadores financeiros eram os responsáveis por pegar o dinheiro disfarçado que era usado em propina das empreiteiras e entregar as quantias que cabiam a cada um dos beneficiários, fazendo assim um papel de intermediário do esquema investigado, sendo que as transferências ocorriam em espécie, transferências no exterior ou por meio de contratos firmados com empresas de fachada.

Agentes Políticos

Responsáveis por indicar e manter os diretores da Petrobrás de modo a manter os esquemas já citados, uma vez que os diretores da companhia eram inteiramente ligados com os processos de licitações que atraíam o cartel de empreiteiras.

Os antecedentes da operação datam de 2009, com a investigação de crimes de lavagem de dinheiro relacionados ao ex-deputado federal José Janene (PP), em Londrina, por conta de uma denúncia feita pelo empresário Hermes Magnus. Além disso, Hermes também teria informado sobre o retorno de Alberto Youssef nas operações clandestinas de dólares. Retorno, pois em 2003, Youssef já havia sido investigado, processado e preso por conta de sua atuação nesse mercado (Caso Banestado).

A então investigação iniciada em 2009 foi batizada de Operações Miquéias, após ter sido deflagrada em 2013, ano em que teve início o monitoramento de conversas telefônicas do também doleiro Carlos Habib Chater, sendo que com isso foi possível identificar organizações criminosas pertencentes, cada uma, a um diferente doleiro, são eles: Chater, Nelma Kodama, Alberto Youssef e Raul Srour. A Petrobrás começou a ser investigada quando o monitoramento das comunicações entre os doleiros revelou a doação de um automóvel Land Rover Evoque por parte de Youssef para o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa.

Assim, a 1º operação de fato da Lava Jato teve início com a prisão de Alberto Youssef e outros, bem como a apreensão de carros de luxo, relógios e joias.

Até a sexta fase, não houve delações. Dividimos a trajetórias da Lava Jato em duas partes e dois modos de organizá-las. Abaixo você pode acompanhar:

(1) da 1ª fase à 6ª fase, quando ainda não houve delações -> resumo das fases

(2) da 7ª fase à 41ª fase, quando vários processos são abertos e se inicia a práticas de delações -> rede de conexões relativa às delações* *o número de delatados chega à casa dos milhares, aqui trabalhamos com um recorte das delações mais relevantes.

PARTE 1: síntese das fases (1ª à 6ª) em que não houve delações:

1ª FASE: Prisão do doleiro Alberto Youssef por operar no mercado clandestino de dólares (segunda investigação de mesmo teor, anteriormente já detidoe preso).

2ª FASE: Prisão do ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, as investigações mostraram relações próximas entre Paulo Roberto e Youssef. O ex-diretor foi preso por destruição de provas que poderiam ser usadas na Operação Lava Jato e houve apreensão de R$700 mil e US$200 mil. É descoberto que André Vargas, então vice-presidente da Câmara (PT-PR), atuou junto com o doleiro Youssef, cinco dias depois André Vargas renunciou. Suspeitas de que a empresa MO Consultoria, controlada por Youssef, servia de fachada para repassar propina para funcionários públicos e políticos.

TIPOS DE CRIMES INVESTIGADOS

Corrupção ativa

entendida por meio do oferecimento de vantagem (geralmente dinheiro) visando que um agente público faça algo que não deveria ser feito ou deixe de fazer o que deveria ser feito dentro das suas funções. Por exemplo: um infrator de trânsito oferecer dinheiro a um guarda de trânsito para não ser multado.

Corrupção passiva

aceitação de uma vantagem por parte de um agente público, para que este realize algo indevido ou deixe de fazer o que é esperado de acordo com o seu cargo. Exemplo: um juiz recebe pagamentos para ter uma posição favorável em um processo.

Gestão fraudulenta

caracterizada pela prática de atos ilícitos pelos respnsáveis pela gestão empresarial, sendo exteriorizada por manobras enganadoras e pela prática consciente de fraudes.

Lavagem de dinheiro

práticas que visam esconder ou dissimular a origem ilícita de ativos financeiros ou bens patrimoniais, fazendo com que esses ativos pareçam ter uma origem lícita.

Organização criminosa

grupo estruturado de 3 ou mais pessoas cujo objetivo seja cometer uma ou mais infrações graves visando obter, direta ou indiretamente, um benefício econômico ou outro benefício material.

Obstrução de justiça

condutas que tenham como finalidade impedir, bloquear, evitar ou inibir de qualquer forma uma investigação de infração penal que envolva uma organização criminosa.

Operação fraudulenta de câmbio

realização de operações de câmbio por pessoas e/ou empresas não autorizadas pelo Banco Central e/ou fora dos mecanismos oficiais de registro e controle.

3ª FASE: Policiais Federais foram à sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro, apreender documentos para a investigação da Operação Lava Jato. Mandados também foram executados na empresa Ecoglobal Ambiental, que possui pelo menos um contrato com a Petrobras no valor de R$443 milhões. Roberto Costa diz em depoimento ter recebido um carro de luxo do doleiro Youssef em pagamento por um serviço de consultoria prestado, segundo ele tal fato teria acontecido depois de deixar a Petrobras. Além disso, documentos mostram que Paulo Roberto poderia ter recebido depósitos milionários na conta de uma de suas empresas, a Costa Global, depósitos esses feitos por Youssef. Investigações apontam para a participação de André Vargas junto com Youssef para conseguir um contrato com o Ministério da Saúde por meio de uma empresa de fachada. Vargas admite ter viajado em um jatinho de Youssef em janeiro do mesmo ano.

Outros investigados foram: Márcio Andrade Bonilho (sócio da Sanko Sider - lavagem de dinheiro e organização criminosa), Waldomiro de Oliveira (operador de propina e organização criminosa), Leonardo Meirelles (operador de propina - lavagem de dinheiro), Leandro Meirelles, Pedro Argese Júnior (operador de propinas - lavagem de dinheiro) e Esdra de Arantes Ferreira (sócio e diretor da Labogen - lavagem de dinheiro).

Os acusados de lavagem de dinheiro acima citados, juntamente com Youssef, teriam obtido recursos por meio de superfaturamento da Rnest, obra feita pelo consórcio CNCC, integrada pela Camargo Corrêa. Ademais, os recursos passaram pelas empresas Sanko, MO Consultoria, Empreiteira Rigidez, RCI Software, Labone Química, Indústria Labogen e Piroquímica.

Mensagens telefônicas de dezembro mostram que o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) teria pedido R$110 mil para Youssef, sendo o dinheiro depositado nas contas de um comerciante de gado (Júlio Gonçalves de Lima Filho) e de uma empresa de transporte (União Brasil Transporte e Serviços). Além disso, Youssef teria pago de um a dois caminhões lotados de bezerros para o deputado.

Instalação da CPI da Petrobras tendo Vital do Rêgo (PMDB-PB) para comandar os trabalhos e José Pimentel (PT-CE), líder do governo no Congresso, como relator. Instalada a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), também presidida por Vital do Rêgo, para investigar as denúncias contra a Petrobrás

PARTE 2: rede de delações mais relevantes relativas às fases (7ª à 41ª) em que essa prática foi constante

Explore a rede abaixo. Nela você consegue visualizar delações premiadas mais relevantes, como a de Delcídio do Amaral. Ela parte de Alberto Youssef, denunciado pelo empresário Hermes Magnus. As relações estabelecidas com cada pessoa se baseiam de duas fontes: 1) delações feitas ou 2) investigações que encontraram relações entre os envolvidos.

Dentre as delações premiadas feitas ao longo da operação Lava Jato, existem aquelas que são referenciadas pelo nome de alguma empresa, visto que vários funcionários de determinada organização foram ouvidos. A rede aqui representada possui duas empresas cujos processos de delação foram compostos por múltiplos de seus executivos, são elas a Odebrecht e a JBS. Todos os funcionários dessas organizações possuem uma identificação no final de seus nomes, por exemplo, Wesley Batista/JBS e Paulo Falcão/Odebrecht.

Você pode buscar nomes no buscador e ver uma ficha sobre cada indivíduo clicando em nas bolinhas correspondentes.

Legenda de cores da rede
Azul Grupo 1: Delatados;
Rosa Grupo 2: Empresas Envolvidas;
Amarelo Grupo 3: Delatores

Para abrir em uma nova tela, clique aqui

Destrinchando a rede

Pessoas

228

228 pessoas estiveram no papel de delatores ou delatadas.

*Lembrando que esta é apenas uma rede das delações mais importantes

Empresas

51

O número de empresas envolvidas no esquema nessas delações foi de 51.

Conexões

425

O número de conexões entre as pessoas e empresas foi de 425.

*A média é de 1,8 conexões (laços ou arestas) entre as partes.

Diâmetro da Rede

8

A maior distância de um ponto ao outro é de 8 conexões.

*De Orlando Silva a Valdir Lima Carreiro passamos por oito pessoas intermediárias

Distância Média

3,7

A distância média de um ponto ao outro é de 3,7 conexões.

*Em geral, entrando nessa trama, precisamos de máximo quatro pessoas para chegar em todas as outras

Comunidades

8

O número de comunidades detectados pelo algoritmo de Blondel et. al. é de oito.

*Comunidades podem ser entendidas aqui como clusters.

Centralidades

Fernando Collor
Humberto Costa
Renan Calheiros

São os delatados que estão em posição de maior centralidade a partir de uma medidade de centralidade harmônica.